sexta-feira, 26 de agosto de 2011

um ano

o fone ia estourando os tímpanos enquanto o ônibus lotado encaminhava-me pra o lar-doce-lar. batia um vento vindo da janela de um céu de fim de tarde de um falso inverno que me fizera suar durante todo o dia, foi quando olhei no relógio e vi que o agosto escorregou por entre os dedos e pensei em nós, sobre esse um ano que diz muita coisa. diz que eu sobrevivi daquele agosto tenebroso. que foi a palma da sua mão sobre a minha num aperto quente andando desvairados numa avenida quase deserta, que me fez levantar da imensa escuridão em que eu me encontrava. ou me perdia. ou não sei. uma escuridão que me engoliu por muito tempo. o meu coração doeu por muito tempo, por ter sido apunhalado por mim mesmo. e foi nos maços de cigarro e no gosto bom(?) do álcool barato que ele se viu remediado, mal sabia quanto amor havia num sorriso que iluminaria toda essa cidade escura. e foi nessa mesma noite, que eu vi na beira do abismo uma chance. uma única chance de sobreviver mais de demasiadamente eu mesmo do que do mundo, se bem que é nessa metafísica do espelho que se vê quanto o mundo está intrincado em você, como uma cicatriz. eu sobrevivi ao meu próprio veneno, corda ou lâmina e entreguei a você, o direito de determinar um caminho pra mim. enlouqueci por um tempo, disse em voz alta o quão louco estava como numa auto-terapia fajuta e no auge dessa loucura me senti curado, da possessividade e da minha impossibilidade de ter em mãos a minha própria vida.
me salvei me achando em você e depois me perdi, enlouqueci. me encontrei quando estive a passos de te perder. foi preciso que eu me achasse em mim pra só depois haver um "mim" em "mim", um "ti" em "ti", um "nós". do mundo não me livrarei, nem ele de mim, aprendi que só há uma salvação ao alcance da mão. não ouso dizer aqui, está em todas as bocas mas em poucos corações.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Um dia antes

"Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros."
                                                                                                                                          Caio




Eu relembrei-me de quando era criança e brincava de rodar no quintal até quebrar um braço.
Eu me lembrei de correr pela casa, fugindo da surra da mãe.
Eu me lembrei de que a TV só funcionava depois de certo momento.
Eu me lembrei de "Jamanta" cuja brincadeira aqui não posso falar.
Eu me lembrei que sempre tinha sol e eu não brigava por isso e
quando chuva tinha, o perigo era molhar a mesa da cozinha.
Eu me lembrei do bombom, que juro que era um ouro branco
e do tênis, esse eu não me lembro o nome.
Eu me lembrei da primeira bebedeira, precoce,
e ela era por simples felicidade.
Eu me lembrei, que ia pra escola
fazia todos os deveres e jamais jogava bola,
Eu me lembrei que o choro era físico, de dor de fora.
Eu me lembrei do pai, da vó, do vô, dos tios,
me lembrei do que chamam de família.
Eu me lembrei que de tanta coisa,
Aí eu acordei e tinha vinte e um anos.


"Em mim [também] não vejo começo nem fim."


Parabéns À você!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Trajetória


Transformai-me-ei em teu braço terno
Vontades súplicas de um beijo eterno
Coragem súbita de um ter te aqui
no encontro do chakra quinto
o meu e teu.

Nada mais é sonho
Realidade nítida
E teu lábio quente
Rente ao meu
É sentido vagarosamente

Teu pelo negro
Na minha perna nua
Fortalezas implacáveis
Numa luta crua
De um sentimento alado
Silenciosamente

Teu eu no meu eu
Meu eu no seu eu


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Cela pública

Nós
e nossas mãos dadas,
dedos entrelaçados,
corpos juntos,
afagos nos cabelos
abraços apertados,
sorrisos sinceros,
olhos nos olhos,
boca na boca,

Eles,
olhares incriminadores,
sorrisos sarcásticos,
mente ignorante.

Presos na grande cela
A pública.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

dói

a saudade tá fazendo uma ferida bem bonita aqui no peito. mas eu sei, ou eu quero saber, que eu ainda tenho alguém que vai cutucar essa ferida bem fundo e fazê-la doer bastante. e me fazer saber que a dor, por mais cruel que seja, significa que nisso tudo, ainda há amor.

quinta-feira, 22 de julho de 2010


do filme "Prayers for Bobby"

sábado, 10 de julho de 2010

mea culpa baby

que culpa eu tenho se minha cama cabe dois e que meus pés nunca mais se esquentaram sozinhos. se meus braços pedem outros braços, abraços quentes, afáveis, apertados. meu peito seco, sujo, sofrido pede peito forte, coração pulsando até quase sair pela boca, pulsando e emanando calor em um eu-tô-vivo-porra pra me fazer acordar de toda essa rotina cansativa. eu não me engano. eu não te engano. eu preciso aprender a perder e esquecer.